Wanderley Nogueira - Site Oficial

Sobre o Wanderley > Memórias

  1. Só ele Sabe
  2. |
  3. Arriba Brasil
  4. |
  5. Charges
  6. |
  7. Credenciais
  8. |
  9. Carteirinhas
  10. |
  11. Prêmio
  12. |
  13. Olho de Repórter

Texto do livro "A Violncia no Esporte", vrios autores. 1996. (Secretaria da Justia e da Defesa da Cidadania)

Wanderley Nogueira
Jornalista Esportivo da Rdio Jovem Pan

As imagens transmitidas, ao vivo, diretamente do Estdio "Paulo Machado de Carvalho", no bairro do Pacaembu, capital do Estado de So Paulo, tiveram o poder de comear uma grande mobilizao contra a violncia nas praas esportivas.

As câmeras da TV Globo foram poderosas. Durante muitos dias, depois daquela manh de domingo, o assunto principal era a exigncia da opinio pblica, querendo rigorosas providncias. Os "torcedores uniformizados" do So Paulo e do Palmeiras mostraram ao Brasil e para quase todos os pases do mundo um espetculo trgico. Mais de cem pessoas ficaram feridas com pauladas e pedradas. Uma, morreu depois de alguns dias. Os "torcedores uniformizados", nos ltimos anos, tm agredido pessoas e destrudo patrimnios. E sem recuar muito no tempo fcil encontrar alguns assassinatos na caminhada das "uniformizadas". A impunidade quase to assustadora quanto os atos criminosos.

Milhes de pessoas assistiram, chocados, s agresses. Rdios e jornais deram amplo espao, cobraram providncias da Polcia e da Justia. Os polticos, quase todos comprometidos com as "uniformizadas", se omitiram. Foi preciso a opinio pblica cobrar duramente, para vereadores, deputados e senadores mostrarem que tambm queriam acabar com a violncia nas praas esportivas. A explicao pela cumplicidade com o silncio fcil de ser explicada, quando vem tona que nos perodos de eleies as "uniformizadas" se tornam cabos eleitorais de quase todos os candidatos. O fim da impunidade era o desejo revelado nas entrevistas pela populao da cidade. Os agressores deveriam ser identificados, processados e afastados dos estdios. Esse era um desejo unnime. At hoje, muitas pessoas atingidas pelas imagens da violncia no voltaram aos estdios.

Muitas reunies discutiram o assunto. Juristas, policiais, jornalistas, dirigentes esportivos, promotores apresentaram sugestes. Os aspectos sociais, corretamente, no foram esquecidos. Os palestrantes pediram uma melhor educao no Pas e uma justa distribuio de renda para evitar "guerras" nos estdios. Mas a situao de emergncia exigiu providncias imediatas, independentemente da luta que todos devem travar em defesa da justia social. A falta de organizao e a impunidade alimentam a violncia. Alguns ilustres analistas lembraram que em todas as pocas e em todas as sociedades sempre houve violncia. Ficou claro que as alternativas so a preveno do delito e punio dos infratores. Vereadores, Deputados Estaduais e Federais e Senadores apresentaram projetos de lei sobre medidas de preveno e represso para vencer a violncia nas praas esportivas.

A nossa experincia, viajando nos ltimos vinte anos por todos os continentes, visitando dezenas de estdios e observando os sistemas de segurana e organizao dos principais eventos esportivos do mundo, nos d a certeza de que h maneiras eficazes de diminuir sensivelmente a violncia nas praas esportivas. A situao grave, especialmente em So Paulo. Lamentavelmente os dirigentes esportivos, acobertados pela concordncia das autoridades de segurana, insistem em protelar a numerao de todos os lugares dos estdios. O custo baixssimo. Os nmeros podem ser pintados nas arquibancadas de cimento. Com os lugares numerados seria possvel, em curto prazo, conhecer o nome do torcedor, por exemplo, sentado na fila G, nmero 57, da arquibancada laranja. A segurana continua sendo ignorada e o anonimato nos estdios extremamente preocupante.

Todos os estdios com capacidade para mais de 15 mil pessoas deveriam ser obrigados a ter cmeras de segurana instaladas na rea interna. As bilheterias no deveriam ser autorizadas a vender mais de 10 ingressos para cada torcedor. Essas medidas so de simples implantao e aumentariam consideravelmente a tranqilidade dentro dos estdios brasileiros. Identificar os "amantes da confuso" e pedir providncias judiciais para impedi-los de comparecer aos estdios nos horrios das partidas. Em alguns pases da Amrica do Sul e da Europa, os torcedores agressivos so "escalados" a prestar servios comunitrios nos horrios dos jogos dos seus times. Recentemente tivemos uma deciso similar proferida pelo Juiz de Direito Luis Flvio Gomes. Seria importante que os Juzes das Varas de Menores seguissem esse caminho para impedir que garotos e garotas fascinados pela violncia compaream aos estdios.

Foi correta a deciso da Federao Paulista de Futebol proibindo a presena das "torcidas uniformizadas" nos estdios. O retrospecto dos ltimos anos no apontava para uma soluo menos traumtica. Foi um duro golpe nestes verdadeiros batalhes de combate e claramente eles sentiram que a medida foi aplaudida pela opinio pblica, cansada de tantos atos agressivos, absolutamente impunes. As camisas dos clubes devem invadir os estdios, mas camisas de "uniformizadas" precisam ser rejeitadas. Alguns lderes de "uniformizadas" ousaram dizer que as suas "torcidas" so mais importantes que os prprios clubes. Outros, mais atrevidos, expulsavam os torcedores comuns dos bons lugares dos estdios. Tudo sob os olhares omissos de dirigentes e policiais. Alguns analistas precipitados e desinformados chegaram a dizer que o baixo nmero de torcedores motivado pela ausncia das "uniformizadas". No verdade.

A violncia das "uniformizadas" afastou muita gente e os pssimos sistemas de disputa no fascinam os "consumidores", alm da dose excessiva de jogos transmitidos pelas emissoras de televiso. Tudo isso somado ao desconforto dos estdios, falta de transporte, dinheiro...

Outra norma que deveria ser implantada e os dirigentes insistem em coloc-la em prtica de quando em quando, a no vendagem de ingresso nos dias dos jogos. As bilheterias no deveriam funcionar nos dias de partidas. Nada de aglomerao, nada de confuso.

fundamental que os dirigentes esportivos incentivem a presena de mulheres e crianas nos estdios. O comparecimento de novos e melhores torcedores s ajudaria no crescimento do evento. Estatsticas mostram que quando o nmero de mulheres e crianas grande, praticamente no h nenhuma ocorrncia policial.

Alm de tudo isso, os estdios devem ser limpos, os sanitrios bem cuidados, bebedouros nos corredores e o excesso de jogos precisa acabar. O intervalo de 72 horas entre uma partida e outra deve ser respeitado. O no cumprimento uma grave violncia. H uma clara sobreposio de datas e acmulo de jogos. necessria uma imediata reciclagem no quadro de rbitros. Ineficincia do rbitro tambm um fator alimentador de violncia. O futebol deveria ser dirigido por dirigentes remunerados e competentes. Tambm a imprensa deveria avaliar seu trabalho evitando abordagens que tratam eventos esportivos como verdadeiras batalhas sangrentas. Competio esportiva deve ser repleta de emoo saudvel e aprimoramento tcnico e ttico. Encontrar a paz nos estdios no uma misso impossvel, mas preciso ter disposio, coragem e uma boa dose de seriedade para atingi-la.


wanderley-nogueira-memorias
Foto chuteira: Stock Exchange