Fisioterapia
DOR NOS JUDOCAS
24/11/2005 - 19h06m
Durante o período medieval japonês, do século XIV ao XVIII, aproximadamente, as artes marciais tiveram grande importância por seu uso militarista, apresentando evidente progresso técnico, destacando-se os grandes talentos em todas as formas de luta pela preservação da vida. Ao mesmo tempo em que aprimorava o físico para adquirir destreza na arte marcial, o lutador desenvolvia formas de dominar seus próprios impulsos e controlar sua vontade, em alto grau, para poder enfrentar as adversidades corajosamente até a morte. Essa filosofia de vida era a alma das artes marciais e os lutadores entendiam que ela só poderia ser atingida através de árduo treinamento para desenvolver o espírito de luta (Budô) através da busca da serenidade, da simplicidade e do fortalecimento do caráter que são qualidades próprias da doutrina Zen. Tinham com isso um código de honra, ética e moral, chamado Bushido que foi elaborado com forte influência do Budismo, alicerçando-se na preservação do caráter máximo, tal como honra, determinação, integridade, espírito de fé, imparcialidade, lealdade e obediência. Preconizava uma forma de viver pela conduta de cavalheirismo, respeito, bondade, desprezo pela dor e sofrimento.
Realmente devia ser muito difícil conviver com a morte todos os dias, os samurais tinham que tornar seu caminho mais significativo para encarar a vida de forma mais suave (dando sentido para sua existência) ao mesmo tempo em que matava ou corria o risco de morrer a qualquer momento.
O Judô foi formado para sistematizar e organizar os princípios de ataque e defesa, enraizados aos aspectos filosóficos, para adquirir atitude moral autêntica, e o melhor convívio do homem com a sociedade e consigo mesmo numa época mais moderna.
Muitos comportamentos característicos dos antigos samurais podem ser percebidos ainda hoje nos atletas ou nos praticantes de Judô. Muitas vezes estes comportamentos mostram-se destorcidos pela interpretação individual de cada um e por nossa imitação de pessoas que distorcem estes ensinamentos ou que não adaptaram à atualidade certos conceitos e com isso geram muitas vezes confusão e dúvida. Por exemplo, o desprezo pela dor e sofrimento pode ser interpretado de uma forma cega pelos judocas e impedir o desenvolvimento do praticante.
Realizei uma pesquisa cujo título é Prevalência e características das dores em praticantes de Judô em judocas acima de 15 anos de idade. De forma resumida percebi que o local em que os praticantes mais sentem dor é o ombro seguido da coluna e joelhos. 63,63% dos praticantes apresentam dor, sendo que metade tem dor crônica, ou seja, mais que 6 meses com o mesmo sintoma aparecendo nos treinos. Algo importante é que quanto mais tempo o individuo tem de prática maior é a chance de ter dor. Apesar da maioria dos indivíduos relatarem que a dor atrapalha pouco em seus treinos e em suas atividades, não ficou tão distante daqueles que sentem que atrapalham moderadamente ou muito. Mas o que determina o quanto a dor atrapalha (o quanto o judoca sofre) para os praticantes de Judô? Além das características e interpretações individuais que são difíceis de avaliar por ser muito subjetivas, a intensidade desta dor e a incapacidade funcional (limitação em suas atividades de movimento funcional) são fatores que foram constatados como influencias diretas do grau de comprometimento para o judoca.
Devido à necessidade de continuar a treinar por uma série de fatores como melhorar auto-estima, buscar um objetivo, crer que a lesão e a dor fazem parte da vida de um atleta, pressão social, e muitas outras, o atleta não é tão abatido com as dores e lesões, não dando atenção, buscando se adaptar de forma consciente ou inconsciente frente ao problema. A dor ou a lesão pode ser boa ou ruim dependendo do que se faz com ela. Ela pode nos mostrar o caminho para melhorar a performance e prevenir complicações futuras e ao mesmo tempo pode ser desastrosa para a vida de um atleta levando ao baixo desempenho e sofrimento humano.
Sabe-se que a dor pode ser muito suportada pelos atletas, podendo não gerar sofrimento como nas pessoas não atletas, mas também se sabe que é o início, muitas vezes, de lesão e incapacidade funcional que gera sofrimento. Então nada melhor que unir estas duas questões em um trabalho preventivo fazendo com que o atleta, ao mesmo tempo em que não encare a dor como sofrimento (o que é bom), entenda-a e busque respostas para este problema, evitando assim prejuízos futuros e não mais negligenciando como muitos fazem. A negligência pode ser ruim para os clubes, para o próprio atleta e para o sistema social, pois limitará a vida útil do atleta, poderá causar sofrimento tanto na fase produtiva do praticante quanto no futuro e, talvez, terão que usufruir assitência médica e muitas vezes ficar limitado para alguns trabalhos futuros.
O esporte relacionado com saúde é muito controverso. Os atletas sustentam a idéia da existência da relação esporte/saúde, sem perceber que as lesões freqüentes na prática esportiva comprometem o seu físico, podendo deixar seqüelas a médio e em longo prazo, algumas até irreversíveis.
Percebe-se que a dor é uma grande companheira dos judocas no caminho do desenvolvimento. O comportamento tão freqüente entre os judocas não vai ao encontro dos objetivos máximos almejados pelo fundador do Judô. Devido à competitividade, os mandamentos do Judô ditos por Jigoro Kano, estão sendo esquecidos e não mais analisados com o objetivo de retirar um sentido prático, relacionando estas verdades a nossas experiências como judoca e principalmente como seres humanos. Dois desses mandamentos podem se encaixar nesta relação da dor com o comportamento dos praticantes de Judô. Conhecer-se é dominar-se. Dominar-se e triunfar. A vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância. A primeira frase nos ensina observar e conhecer aquilo que a dor quer nos passar de informação. E a segunda refere-se a enxergar nossos comportamentos que são movidos pela ansiedade, medo e ganância, nos aprisionando na ignorância e como conseqüência, deixando-nos cegos para as sensações importantes que acontecem dentro de nós. Assim como tudo na vida está preso à lei da ação e reação, a não observação dos mandamentos acarreta o sofrimento.
O Judô tem que despertar coragem, firmeza nas ações, velocidade de raciocínio e de ação, não de uma forma ignorante e automática, mas sim de forma que despertamos nossa consciência para uma ação mais coerente frente aos estímulos. Tanto os praticantes, atletas ou não atletas como os professores, têm que observar o comportamento frente ao estimulo doloroso. Pois podemos nos fazer de coitados e valorizar mais que o necessário o sintoma, assim como negligenciá-lo, refletindo com isso, a ignorância e a falta de consciência que tanto o Judô pode nos ensinar.
A solução é trazer para a consciência do atleta e praticante estas questões preparando-o para encará-los de frente, adquirindo comportamentos favoráveis para evitar maiores prejuízos. Mas a grande questão é como os professores podem fazer com que o judoca perceba tais conceitos dentro da sua realidade de uma forma que o praticante crie gosto em observar-se.
Autor: Rodrigo Rizzo rizzoone@terra.com.br
Por Rodrigo R. N. Rizzo (fisioterapeuta, CREFITO - 3/7258)